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Evolução é um fato e uma teoria

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abril 22, 2012 by administrador


Por Laurence Moran, 1993.

 

Quando não-biólogos falam sobre evolução biológica, freqüentemente confundem dois aspectos diferentes da definição. Por um lado há a questão de se os organismos modernos evoluíram ou não a partir de antigos organismos ancestrais ou se as espécies modernas estão em contínua mudança ao longo do tempo. Por outro lado, existem as questões sobre o mecanismo das mudanças observadas… Como a evolução acontece? Biólogos consideram a evolução biológica um fato. Ela pode ser demonstrada hoje e as evidências históricas para sua ocorrência no passado são esmagadoras. Entretanto, os biólogos rapidamente admitem que eles estão menos certos sobre o exato mecanismo da evolução; existem várias teorias acerca do mecanismo da evolução. Stephen J. Gould abordou isto como nenhum outro:

No vernáculo americano, “teoria” freqüentemente significa “fato imperfeito” – parte de uma hierarquia de confiança em ordem descendente a partir de fato até teoria, hipótese e suposição. Por isso o poder do argumento criacionista: evolução é “somente” uma teoria, e o intenso debate agora assola muitos aspectos da teoria. Se a evolução é menos que um fato, e os cientistas não podem sequer decidir sobre a teoria, que confiança nós podemos ter neles? De fato, o ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan ecoou este argumento ante um grupo evangélico em Dallas quando disse (o que eu sinceramente espero que seja retórica de campanha): “Bem, é uma teoria. É somente uma teoria científica e tem sido desafiada recentemente no mundo da ciência – isto é, desacreditada na comunidade científica como sendo infalível, como já foi uma vez”.

Bem, evolução é uma teoria. É também um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, não degraus em uma hierarquia de aumento de certeza. Fatos são dados do mundo. Teorias são estruturas de idéias que explicam e interpretam fatos. Fatos não vão embora quando cientistas debatem teorias rivais para explicá-los. A teoria da gravitação de Newton foi substituída pela teoria de Einstein neste século, mas as maçãs não se mantêm suspensas no ar em conseqüência disso. E os humanos evoluíram a partir de ancestrais semelhantes a macacos de acordo com o mecanismo proposto por Darwin ou por outro ainda a ser descoberto.

Acima de tudo, “fato” não significa “certeza absoluta”; não há nada como os animais em um mundo excitante e complexo. A prova final de lógica e matemática flui dedutivamente de premissas determinadas e atingem a exatidão somente porque não são sobre o mundo empírico. Os evolucionistas não clamam por uma verdade perpétua, pensamento que criacionistas freqüentemente têm (e então nos atacam falsamente por um estilo de argumento que lhes favorece). Em ciência, “fato” pode significar somente “confirmado em um grau em que poderia ser incorreto impedir uma aprovação provisória”. Eu suponho que maçãs possam começar a levitar amanhã, mas a possibilidade não merece um tempo igual nas aulas de física.

Os evolucionistas tem sido muito claros sobre esta distinção entre fato e teoria desde o início, embora apenas porque nós sempre reconhecemos como estamos distantes de compreender completamente os mecanismos (teoria) pelos quais a evolução (fato) ocorre. Darwin continuamente enfatizou a diferença entre suas duas grandes e separadas obras: o estabelecimento do fato evolução, e a proposta da teoria – seleção natural – para explicar o mecanismo de evolução (Gould, 1981).

Gould está declarando a visão predominante da comunidade científica. Em outras palavras, os especialistas em evolução a consideram um fato. Esta não é uma idéia originada com Gould, como as seguintes citações indicam:

Deixe-me tentar tornar claro como cristal o que está estabelecido além das dúvidas razoáveis, e que precisam estudos adicionais acerca da evolução. A evolução, como um processo que sempre existiu na história da Terra, pode ser duvidada somente por aqueles que ignoram as evidências ou são resistentes às evidências devido a bloqueios emocionais ou evidente fanatismo. Por contraste, os mecanismos que conduzem a evolução certamente precisam de estudos e clarificação. Não há nenhuma alternativa à evolução como história que possa resistir a um exame crítico. Ainda, nós estamos constantemente aprendendo novos e importantes fatos sobre os mecanismos evolutivos (Dobzhansky, 1983).

Também:

É hora dos estudantes do processo evolutivo, especialmente aqueles que têm sido citados erroneamente e usados pelos criacionistas, definir claramente que evolução é um fato, não uma teoria, e que o que está em discussão na biologia são questões de detalhes dos processos e a relativa importância dos diferentes mecanismos de evolução. É um fato que a Terra com água líquida tem mais que 3,6 bilhões de anos. É fato que a vida celular está aí há pelo menos metade deste período e que a vida multicelular organizada tem pelo menos 800 milhões de anos. É fato que as maiores formas de vida existentes sobre a Terra não estavam todas representadas no passado. Não havia pássaros ou mamíferos há 250 milhões de anos atrás. É fato que grandes formas de vida do passado não vivem mais. Costumavam existir dinossauros e o Pithecanthropus, e agora eles não existem mais. É fato que todas as formas vivas vieram de formas vivas prévias. Conseqüentemente, todas as formas de vida presentes surgiram de formas ancestrais que eram diferentes. Pássaros surgiram a partir de não-pássaros e humanos a partir de não-humanos. Nenhuma pessoa que pretende qualquer compreensão do mundo natural pode negar estes fatos não mais do que pode negar que a Terra é redonda, faz rotação sobre seu eixo e revolução ao redor do Sol.

As controvérsias sobre evolução estão no campo da importância relativa de várias forças que moldam a evolução (Lewontin, 1981).

Este conceito é também explicado na introdução de livros de biologia que são usados em faculdades e universidades (e em alguns dos melhores colégios). Por exemplo, em alguns dos melhores destes livros nós encontramos:

Hoje, quase todos os biólogos reconhecem que a evolução é um fato. O termo teoria não é o mais apropriado exceto quando nos referimos aos vários modelos que procuram explicar como a vida evolui… É importante entender que as questões atuais sobre como a vida evolui de nenhuma forma implicam em discordância com o fato da evolução (Campbell, 1990).

Também:

Desde os tempos de Darwin, evidências adicionais massivas têm sido acumuladas apoiando o fato da evolução – que todos os organismos presentes sobre a Terra hoje surgiram a partir de formas ancestrais no curso da longa história da Terra. Certamente, toda a biologia moderna é uma afirmação deste parentesco de muitas espécies vivas e suas divergências graduais no curso do tempo. Desde a publicação de “A Origem das Espécies”, a questão importante sobre evolução, cientificamente falando, não tem sido se ela aconteceu. O que não é há muito tempo um problema dentre a vasta maioria dos biólogos modernos. Hoje, as questões centrais e ainda fascinantes para os biólogos dizem respeito aos mecanismos pelos quais a evolução acontece (Curtis e Barnes, 1989).

Um dos melhores livros introdutórios sobre evolução é o de Douglas J. Futuyma, e ele faz o seguinte comentário:

Poucas palavras precisam ser ditas sobre a “teoria da evolução”, que a maioria das pessoas entendem ser a proposição de que os organismos evoluíram a partir de ancestrais comuns. Na linguagem do dia-a-dia, “teoria” muitas vezes significa uma hipótese ou mesmo uma mera especulação. Mas em ciência, “teoria” significa “uma proposição do que é sustentado como sendo as leis gerais, princípios ou causas de algo conhecido ou observado”, como define o Oxford English Dictionary. A teoria da evolução é um conjunto de afirmações interligadas sobre seleção natural e outros processos que, conforme se pensa, causam a evolução, assim como a teoria atômica da química e a teoria da mecânica Newtoniana são conjuntos de afirmações que descrevem as causas de fenômenos químicos e físicos. Em contraste, a afirmação de que organismos descenderam com modificações, a partir de ancestrais comuns – a realidade histórica da evolução – não é uma teoria. É um fato, como o fato das revoluções da Terra ao redor do Sol. Assim como o sistema solar heliocêntrico, a evolução começou como uma hipótese, e atingiu o status de “fato” à medida que as evidências a seu favor se tornaram tão fortes que nenhuma pessoa destituída de preconceito e munida de conhecimento pode negar sua realidade. Nenhum biólogo hoje pensaria em apresentar um artigo para publicação intitulado “Novas Evidências para Evolução”; faz um século que, simplesmente, isto não é questionável (Futuyma, 1986).

Há leitores deste grupo* que rejeitam a evolução por razões religiosas. Em geral, estes leitores se opõem tanto ao fato da evolução quanto às teorias dos mecanismos, embora alguns anti-evolucionistas percebam que existe uma diferença entre os dois conceitos. É por isso que vemos alguns dos principais anti-evolucionistas admitindo o fato da “microevolução” – eles sabem que a evolução pode ser demonstrada. Estes leitores não se convencerão do fato da macroevolução por qualquer argumento lógico e é uma perda de tempo fazer o esforço. O melhor que nós podemos esperar é que eles compreendam os argumentos aos quais se opõem. Até mesmo esta expectativa é raramente satisfeita.

Há alguns leitores que não são anti-evolucionistas mas ainda declaram que a evolução é “somente” uma teoria que não pode ser provada. Este grupo precisa distinguir entre o fato de que a evolução ocorre, e as teorias dos mecanismos evolutivos.

Nós também precisamos distinguir entre fatos que são facilmente demonstrados daqueles que são mais circunstanciais. Exemplos de evolução que são prontamente evidentes incluem o fato de que populações modernas estão evoluindo e o fato de que duas espécies intimamente relacionadas compartilham um ancestral comum. As evidências de que Homo sapiens e chimpanzés compartilham um ancestral comum recente entram nesta categoria. Há muitas evidências apoiando este aspecto da evolução dos primatas que a qualifica como fato por qualquer definição comum de “fato”.

Em outros casos as evidências disponíveis são menos fortes. Por exemplo, as relações de alguns dos maiores filos ainda estão sendo desvendadas. Também, a afirmação de que todos os organismos descendem de um único ancestral comum é fortemente apoiada pelas evidências disponíveis, e não há evidência oposta. Entretanto, ainda não é apropriado chamarmos de “fato” uma vez que há alternativas razoáveis.

Finalmente, há um argumento epistemológico contra a evolução como um fato. Alguns leitores deste grupo apontam que nada em ciência pode jamais ser provado e isto inclui a evolução. De acordo com este argumento, a probabilidade de que a evolução seja uma explicação correta da vida como nós conhecemos pode alcançar os 99,999…9% mas nunca ser 100%. Assim, a evolução não pode ser um fato. Este tipo de argumento pode ser apropriado em uma classe de filosofia (está essencialmente correto) mas não no mundo real. Um “fato”, como Stephen J. Gould apontou (ver acima), significa algo que é tão altamente provável que seria tolo não aceitar. Este ponto é também levantado por outros que contestam os epistemologistas minuciosos.

A ciência honesta, como a filosofia, dirá a você que nada pode ser ou tem sido provado com 100% de certeza, nem que você ou eu existamos, nem qualquer pessoa exceto ele mesmo, uma vez que ele pode estar sonhando tudo. Assim, não existe uma linha definida entre a especulação, hipótese, teoria, princípio e fato, mas somente uma diferença ao longo de uma escala no grau de probabilidade de uma idéia. Quando nós dizemos que uma coisa é fato, significa, então, que a probabilidade é extremamente alta: tão alta que nós não nos preocupamos em duvidar e estamos prontos para agir de acordo. Desta forma, neste uso do termo fato, o único apropriado, evolução é um fato. Evidências a favor disto são volumosas, diversas e convincentes como no caso de qualquer outro fato bem estabelecido da ciência relativo à existência de coisas que não podem ser vistas diretamente, como átomos, nêutrons ou gravitação solar…

As evidências para evolução tornaram-se tão enormes, ramificantes e consistentes que se alguém pudesse refutá-la, eu teria minhas concepções da regularidade do universo tão balançadas que me levariam a duvidar de minha própria existência. Se você preferir, eu lhe garanto que em um sentido absoluto a evolução não é um fato, ou melhor, que não é um fato maior do que o fato de você estar lendo ou ouvindo estas palavras (Muller, 1959).

Em qualquer sentido significativo a evolução é um fato, mas há várias teorias relativas ao mecanismo da evolução.

 

Referências

Campbell, N.A. (1990). Biology 2nd ed., Benjamin/Cummings, p. 434.

Curtis, H. and Barnes, N.S. (1989). Biology 5th ed. Worth Publishers, p. 972.

Dobzhansky, T. (1983) “Nothing in Biology makes sense except in the light of evolution”, American Biology Teacher vol. 35 (march 1973) reprinted in Evolution versus Creationism, J. Peter Zetterberg ed., Oryx press, Phenix AZ, 1983.

Futuyma, D.J. (1986). Evolutionary Biology, 2nd ed., Sinauer Associates, p. 15.

Gould, S.J. (1981). Evolution as Fact ant Theory. Discover.

Lewontin, R.C. (1981) Evolution/Creation Debate: a time for truth. Bioscience 31: 559, reprinted in Evolution versus Creationism, op. cit.

Muller, H.J. (1959). One Hundred Years Without Darwin are Enough. School Science and Mathematics 59, 304-305, reprinted in Evolution versus Creationism op cit.


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