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Predições e Explicações

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abril 22, 2012 by administrador

John Wilkens, 1997.

Traduzido por Fernando Lorenzon

Evolução é algumas vezes criticada por não ser uma ciência preditiva, e por não possuir leis naturais. Isto está ligado ao problema se a evolução deveria ser como a física, mas ambos problemas levantam questões mais gerais. Isso leva à questão se explicações devem fazer uso de leis naturais, e o que são explicações, afinal de contas? Uma teoria sobre explicação é chamada de teoria dedutiva-nomológica, ou menos pretensiosamente, a teoria dedutiva-hipotética. Imposto pelos filósofos Karl Popper e G.C. Hempel, ela tem a forma:

A idéia é que se a coisa a ser explicada é uma conseqüência lógica, dedutiva, de premissas e de leis universais, então você a explicou. Uma vez que você tenha uma teoria desta forma, então você pode predizer que um fenômeno ocorrerá se as condições iniciais estão certas, baseado no modelo de leis universais da física, química, etc:

Há uma versão que usa suposições estatísticas e permite argumento indutivo preferivelmente a restringir explicação a argumentos dedutivos, chamado de modelo estatístico-indutivo, mas podemos ignorá-lo seguramente aqui. A predição é uma conseqüência dedutiva de uma teoria verdadeira e medidas apropriadas. Visto que evolução não pode fazer predições deste tipo, e na realidade qualquer resultado é compatível com a teoria, seus críticos dizem que evolução não é uma ciência completa. Entretanto, há problemas com concepção altamente idealizada da explicação científica, e de qualquer jeito, eu afirmarei que isso não afeta a evolução.

Qualquer conjunto de leis é uma simplificação ideal. A fim de predizer onde um planeta vai estar em 10.000 anos, você tem de ignorar muitas coisas, como os corpos muito pequenos, a influência de estrelas e galáxias distantes, fricção implicadoa pelo vento solar, e assim por diante. E funciona, em um determinado grau. Mas este grau ainda é real. Você errará por poucos metros, mas você errará, devido a estas complicações ignoradas.

Sistemas físicos deste tipo são estáveis, no que condições iniciais não afetarão grandemente o resultado. Evolução não é como estes sistemas. É altamente sensível às condições iniciais e as condições periféricas que surgem durante o curso da evolução. Você não pode predizer com qualquer grau razoável de acerto quais mutações surgirão, quais genótipos recombinarão, e quais outros eventos perturbarão a maneira em que as espécies se desenvolvem ao longo do tempo. Além disso, as tão faladas ‘leis’ da genética e outras regras não são leis. Elas são excepcionais. Literalmente. Para cada lei, logo embaixo do tão falado ‘dogma central’ da genética molecular, há pelo menos uma exceção.

E ainda, sabemos das propriedades de muitos processos e sistemas biológicos bem o suficiente para predizer o que eles farão na ausência de quaisquer outras influências. Isto é provado em laboratório diariamente. Então, desta forma, temos na biologia a extremidade do continuum do que temos em física na outra extremidade. A diferença é em graus, não tipo. E cada vez mais, físicos estão descobrindo sistemas que são similarmente instáveis e sensíveis. Você não pode predizer em física que qualquer pequeno número de moléculas farão em uma chama, ou em um grande volume de gás, por exemplo. E enquanto o clima não pode ser predito totalmente em detalhes por muito tempo, você pode explicar o clima da última semana através das condições iniciais e da lei da termodinâmica, etc, após ter acontecido.

Se você pegar a forma padrão da explicação biológica, ela possui a mesma estrutura como uma explicação física. Apenas diferindo de duas formas. Primeiramente, você não pode isolar influências ‘estranhas’ à frente do tempo para populações selvagens. Segundo, você não pode fazer uma predição muito além do termo curto imediato (então, ninguém pode predizer o futuro da evolução das espécies). Embora um número de experimentos tenha sido conduzido para testar hipóteses selecionistas através da predição, como os estudos em pintassilgos nas Ilhas Galápagos pelos Grants, na maior parte, explicações na evolução seguem o seguinte formato:

Em outras palavras, elas são “retrodições”, não predições. A única diferença formal entre esta e a mesma forma em física é que o tempo é diferente. Este uso do modelo nomológico-dedutivo em casos históricos é chamado de um modelo de lei de cobertura.

Então, a física não é na verdade um tipo diferente de ciência para biologia evolucionária, exceto em algumas questões de conveniência com experimentação, e o grau de estabilidade do sistema que às vezes ela explica, e nem sempre, também.

Explicações de lei de cobertura podem ser usadas para retrodizer as condições iniciais, sob determinadas circunstâncias. Se você sabe o que está em evidência agora, e você tem leis que geram estes resultados, você pode predizer algumas vezes o que será encontrado:

Por exemplo – você sabe que determinadas características de formigas são derivadas (não no ancestral primitivo). Você tem leis gerais de evolução que são consideradas pelo fenômeno que você observa (formigas reais de hoje, e seu registro fóssil). Então, você prediz que uma determinada forma transicional será encontrada. Quando é encontrada, você tem uma predição genuína.

Sob quais condições especiais isto pode ser feito? Bem, para começar, você tem um argumento dedutivo se A então B, você não pode deduzir imediatamente da existência ou verdade de B, que A. Pode ter sido alguma outra coisa. B pode ter uma infinidade virtual de causas possíveis. Antes que você possa fazer uma retrodição como esta, você deve estreitar o campo. Isto é, você tem de assumir a validade de alguns modelos teóricos antes que você possa fazer a retrodição/predição. Por outro lado, se você fizer tal afirmação, e for criticada, você terá certamente fortalecido seu modelo.

Finalmente, perceba que o modelo dedutivo-nomológico não é sofisticado o suficiente para capturar tudo de importante sobre explicações científicas. Uma boa quantidade de explicações científicas se apóia não em leis, mas em propensões, isto é, possibilidade de se comportar de uma determinada maneira. E muitas explicações científicas, convenientes e perfeitamente aceitas, não são dedutivas, mas indutivas. Isto é, o resultado provável das condições iniciais e das leis não é de uma dedução rigorosa, mas uma indução com todos os problemas que traz. Ainda assim, isso é o que ciência faz, quer os filósofos gostem ou não.

 


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