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Mutação e seleção natural: fatores evolutivos? – Texto comentado

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setembro 7, 2011 by administrador


O texto original pode ser lido em http://origins.swau.edu/papers/evol/marcia3/defaultp.html

Comentários por Rubens Pazza, Dr., 2003.

 

O texto apresentado pela Dra. Márcia Oliveira de Paula (1999) incorre em diversos erros crassos, facilmente observados por qualquer estudioso da evolução. Como vários outros textos amplamente difundidos pela Internet, não apresenta base alguma que reforce sua opinião, podendo ser considerada, literalmente, como a opinião de uma pessoa pouco informada. A seguir, farei uma série de observações acerca das afirmações da autora, procurando sempre correlacionar minha resposta com bases em estudos e escritos já amplamente divulgados por livros textos de evolução e outras áreas relacionadas. Antes, porém, é bom sempre lembrar que a Seleção Natural atua apenas sobre uma variação pré-existente, sobre uma característica hereditária e que a variação esteja relacionada com valor adaptativo diferencial.

O texto da Dra. Marcia Oliveira de Paula está em itálico, seguido de meus comentários, em fonte normal.

 

INTRODUÇÃO

De acordo com a teoria da evolução, a vida na terra começou com a evolução da célula, a partir da qual se desenvolveram os organismos mais simples. Estes deram origem aos organismos mais complexos. Todos os novos genes e novas informações surgiram por mutação e recombinação. As mutações ocorrem ao acaso. A maioria delas são deletérias e diminuirão a adaptação dos organismos ao meio ambiente. Novas combinações do material genético são formadas através da recombinação de genes que ocorre na meiose, durante a reprodução sexuada. A seleção natural elimina as mutações deletérias e preserva as combinações disponíveis que estão melhor adaptadas ao ambiente.

Pode-se então perceber que, segundo a teoria da evolução, a mutação e seleção natural constituem-se nos principais fatores evolutivos. Mas será que elas somente seriam capazes de, a partir de organismos unicelulares, originar toda a grande variedade de seres vivos que temos hoje?

Embora o senso comum possa fazer parecer, a maioria das mutações não é deletéria, mas neutra. Isso é fácil de ser observado. Na maioria dos organismos eucariotos, é verificado grande quantidade de DNA não codificante. Como as mutações são em geral ao acaso, a probabilidade de uma mutação acontecer em uma região não codificante é muito grande, proporcional à relação entre genes e seqüências não codificantes do genoma. Mas não é só isso. Eucariotos apresentam uma constituição gênica composta por exons e íntrons, além de, em alguns casos em se tratando de genes repetitivos há também espaçadores não transcritos ou ainda espaçadores intergênicos. Os exons são as seqüências que efetivamente terão seus mRNAs traduzidos a proteínas. Já os íntrons são retirados do transcrito primário, não sendo traduzidas em proteínas, assim como os espaçadores intergênicos. Como o próprio nome já diz, os espaçadores não transcritos não são transcritos. Temos assim, mais uma forma de uma mutação não ser deletéria. Mas ainda não acabou. Alguns aminoácidos são codificados por mais de um códon. Logo, uma mutação que altere um códon que codifica alanina, por exemplo, para outro códon que codifica alanina, não vai apresentar problema algum. Se estes casos ainda não bastam, temos mais um. A função de uma proteína depende de sua estrutura tridimensional. Esta estrutura é definida de acordo com a seqüência de aminoácidos e as características individuais destes. Exceto na região de atividade ou regulação de enzimas e em alguns outros casos que comprometam a funcionalidade da proteína, é possível que um aminoácido seja trocado por outro de característica semelhante (polaridade, tamanho, etc.).

Se vocês pensam que acabou, estão enganados. Para que uma mutação seja passada adiante, ela deve acontecer nos tecidos germinativos, caso contrário não será transmitida aos descendentes. Uma mutação que acontece no estômago, por exemplo, pode ativar algum oncogene, mas jamais será transmitido aos descendentes do indivíduo. A menos que aconteça antes do indivíduo se reproduzir nem mesmo mutações no tecido germinativo são necessariamente transmitidos aos descendentes. Além disso, uma mutação num gene que é expresso apenas no rim, por exemplo, só vai ter efeito no rim, em nenhum outro tecido.

Como se pode perceber, há inúmeras chances de uma mutação não alterar nada além da seqüência do DNA, não comprometendo, a priori, nenhuma atividade celular. Em se tratando de organismos unicelulares, entretanto, uma única mutação pode alterar bastante o fenótipo e contribuir para a modificação da espécie. No caso de organismos unicelulares, que não apresentam íntrons (ou são raros), nem espaçadores, a probabilidade de que uma mutação seja neutra é menor, certamente. Mas é bom lembrar que uma bactéria como a Eschirichia coli, dobra sua colônia a cada 20 minutos. Uma ou outra célula mutante inviável não faria o menor problema.

Outro ponto obscuro no texto é no que se refere à mutação e recombinação como únicas fontes de variação, dizendo que todos os novos genes são derivados delas. Não se pode ignorar o grande papel destes fenômenos na evolução, mas não são os únicos. Outros, como slippage e conversão gênica, também são responsáveis pelo aumento na variação. Também já foi demonstrado que um novo gene pôde surgir após uma duplicação, que permitiu que mutações pudessem acontecer modificando o gene sem haver comprometimento com as funções, pois o gene antigo ainda estava presente. Os genes de histonas e de anticorpos são bons exemplos. Logo, novas combinações podem ser obtidas não apenas por recombinação genética durante o crossing-over, mas também por outras fontes.

O que escrevi não é segredo nenhum. Está em qualquer livro de genética molecular, como o de Lewin (2000). As referências seguirão ao final do texto.

 

MECANISMOS EVOLUTIVOS

Existem quatro explicações normalmente oferecidas para a variação observada dentro de uma espécie e entre espécies diferentes: influências ambientais, mutação, recombinação e seleção natural.

Influências ambientais

Respostas a diferentes fatores ambientais podem produzir diferenças entre indivíduos, mas isso não ocorre devido a novos genes, mas sim devido à expressão de genes que já estavam presentes. Por exemplo, os abetos Englemann existentes nas Montanhas Rochosas atingem 25 metros na altitude de 2700 metros, mas apresentam formas anãs grotescas na altitude de 3000 a 3300 metros. A variação ambiental não afeta a linhagem, isto é, se as sementes forem plantadas em outro ambiente, as plantas se desenvolverão de acordo com o novo ambiente, e não com o velho.

 

Há uma necessidade de se diferenciar os mecanismos que proporcionam variação dos mecanismos que atuam sobre as variações. Mutações, recombinação, alterações cromossômicas, processos genéticos, são fontes de variação. Seleção natural, seleção sexual e deriva genética são mecanismos que atuam sobre as variações pré-existentes.

As influências ambientais nada mais são do que parte da seleção natural. Clima, relevo, inter-relações com outras espécies, são todas parte do ecossistema e atuam no que chamamos de seleção natural. Diferente do que muitos pensam, a seleção natural não é uma entidade, mas um conjunto de situações que atuam sobre uma população. Sempre é bom lembrar também que a evolução não age sobre um indivíduo, de maneira que um indivíduo não evolui, mas uma população, sim. Fatores não genéticos como variação de idade, variação sazonal de indivíduos ou gerações, variação social, ecológica ou traumática não são herdadas e atuam na adaptação do indivíduo, não da população. Variações genéticas, sim, atuam na adaptação da população (Mayr, 1970).

Embora o sucesso de um indivíduo ocasionado pela sua adaptação ao meio seja importante para que seus genes sejam transmitidos aos descendentes, se ele não for portador de uma variação não vai contribuir para a evolução que, por definição, é a mudança ao longo das gerações.

 

Mutação

A mutação pode ser definida como um evento que dá origem a alterações qualitativas ou quantitativas no material genético. Podem ser de dois tipos:

-Mutação gênica ou mutação de ponto

São alterações muito pequenas que não afetam os cromossomos de maneira visível, pois envolvem alterações num número reduzido de nucleotídeos da molécula de DNA. Podem ser substituições de bases ou adições ou deleções de nucleotídeos na molécula de DNA.

-Mutação cromossômica ou aberração cromossômica

São mutações que alteram de maneira visível ao microscópio, seja o número, seja a estrutura dos cromossomos.

As aberrações cromossômicas podem ser:

1. Numéricas: envolvem alterações no número cromossômico. Estas podem ser subclassificadas em euploidias e aneuploidias.

Euploidias – um indivíduo ou célula diplóide normal tem dois genomas (2n). Euplóides são células ou organismos nos quais o número de genomas (n) ocorre em múltiplos inteiros (n, 3n, 4n, 5n, etc.).

Aneuploidias – neste tipo de modificação, o número de cromossomos do genoma fica alterado, formando complementos somáticos que são múltiplos irregulares do genoma característico da espécie. Assim, o indivíduo tem cromossomos a mais ou a menos em um dos pares, mas não em todos.

2. Estruturais: afetam a estrutura dos cromossomos, ou seja, o número ou o arranjo dos genes nos cromossomos. Podem ser subclassificadas em:

Deficiência ou deleção – é a perda de uma porção maior ou menor do cromossomo, resultando na falta de um ou mais genes.

Duplicação – é o produto da presença de uma porção extra de cromossomo, resultando na repetição de um ou mais genes.

Inversão – ocorre quando, num determinado segmento de cromossomo, houver duas fraturas, seguidas da subsequente soldadura do fragmento mediano, agora, porém, colocado em posição invertida.

Translocação – ocorre quando os fragmentos de um cromossomo são transferidos para outro cromossomo não homólogo.

O fenômeno da mutação é um componente da maior importância do modelo evolucionista. Este precisa pressupor algum mecanismo que produza o processo ascendente requerido em termos de complexidade, que caracteriza o modelo em sua dimensão mais ampla. E a mutação é supostamente este mecanismo.

Porém, alguns fatos experimentais sobre as mutações devem ser considerados:

1. As mutações são feitas ao acaso, e não dirigidas.

Não há forma alguma de controlar as mutações, para fazer com que elas produzam as características que possam ser necessárias. A seleção natural precisa simplesmente aproveitar-se do que der e vier.

2. As mutações são raras.

A freqüência estimada da maioria das mutações nos organismos superiores é de uma em dez mil a uma em um milhão por gene por geração.

3. A maioria das mutações é deletéria.

As aberrações cromossômicas geralmente têm efeitos bastante drásticos sobre os indivíduos que as possuem. Com relação às aberrações numéricas, as alterações fenotípicas produzidas pela adição ou subtração de um cromossoma (aneuploidia) são tão drásticas que tornam estes tipos de aberrações praticamente sem importância na evolução. Euploidias são muito raras em animais, mas em vegetais podem originar novas espécies. As aberrações cromossômicas estruturais também podem ter efeitos bastante graves. Pequenas deficiências podem comprometer substancialmente a viabilidade de seus portadores. Já as duplicações são mais comuns e menos prejudiciais que as deficiências. Segundo alguns autores, as duplicações fornecem um meio de introduzir novos genes numa população. Estes novos genes poderiam sofrer mutação sem causar grandes danos ao organismo, pois as enzimas indispensáveis estão sendo sintetizadas pelo gene não alterado.

A maioria das milhares de mutações gênicas estudadas é deletéria e recessiva. É altamente improvável que uma mutação possa ser construtiva. Mudanças casuais em qualquer sistema complexo integrado provavelmente perturbarão o sistema. Por exemplo, mutações nos genes das moscas das frutas podem causar perda ou redução das asas, mudanças na cor dos olhos e outras. O fato de que as mutações são normalmente neutras ou deletérias contradiz o ponto de vista de que as mutações constituem um mecanismo para o avanço de uma espécie.

Apesar de que a maioria das mutações torna os organismos menos eficientes, sendo assim desvantajosas, existe a possibilidade de desenvolver novas características desejáveis através da indução de mutações, principalmente em plantas. Por exemplo, já foram obtidos mutantes de cevada que apresentam aumento na produção, resistência a doenças causadas por fungos, caule mais rijo, aumento no conteúdo de proteínas e sementes sem casca.

Algumas mutações são neutras, ou seja, não diminuem a sobrevivência das espécies.

Para que uma espécie se torne mais complexa, é necessário mais que uma simples mutação em um gene: são requeridos novos genes. Mas adicionar simplesmente um novo gene pode não funcionar. Genes não trabalham isolados. Ao contrário, o conjunto de genes de um organismo trabalha junto para produzir o organismo. Um novo gene precisa interagir apropriadamente com todos os outros genes para que o organismo sobreviva. Além disso, vários novos genes seriam necessários para produzir uma nova estrutura e um organismo mais complexo. Cada novo gene requereria um gene regulador. Além disso, cada novo gene teria que operar em um determinado momento no desenvolvimento para que a nova estrutura se desenvolvesse corretamente. Não parece razoável esperar que mesmo um novo gene apareça por acaso, quanto mais diversos genes altamente coordenados trabalhando juntos para produzir uma nova estrutura.

Já discorri sobre as mutações, sobre o fato de que a grande maioria é neutra, não deletéria. Isso pode ser observado devido à grande magnitude de polimorfismos existentes na natureza. Tanto pesquisas de marcadores moleculares (como micro ou minissatélites até análise de seqüências nucleares ou mitocondriais) até ao nível “macro” das alterações cromossômicas (embora principalmente em se tratando de humanos alguns autores utilizem o termo “aberração”, eu prefiro utilizar o termo “alteração”, por ser menos agressivo) têm indicado a ocorrência de polimorfismos intra e interpopulacionais de forma surpreendente. Tais observações comprovam que a maioria das mutações é neutra, não deletéria. Embora não citado em nenhum momento pela autora do texto, o neutralismo é bastante conhecido entre biólogos evolutivos desde os anos 60, com os experimentos de Kimura. Tanto que qualquer livro de Evolução atual aborda o assunto, como os livros de Ridley (2003), Stearns e Hoekstra (2000), entre outros.

Os mecanismos que atuam sobre as seqüências reguladoras dos genes são os mesmos que atuam sobre os genes em si. Além disso, uma duplicação gênica pode duplicar também a região promotora e reguladora, sem maiores problemas. Uma prova disso são os pseudogenes, que são seqüências muito semelhantes a um gene, mas que não têm regiões promotoras ou reguladoras. Nada impede que o acúmulo de mutações acabe ativando-o. Ainda, uma inversão cromossômica aproximando ou distanciando uma região heterocromática do cromossomo pode interferir na ativação de um gene (os dados sobre silenciamento gênico, pseudogenes, etc., podem ser encontrados no livro de Lewin, citado anteriormente).

 

Recombinação

Recombinação é a mistura de genes que ocorre durante a meiose, para formação dos gametas. Essa recombinação é responsável pela singularidade de cada indivíduo de uma mesma espécie. A probabilidade de que dois indivíduos da mesma irmandade sejam iguais é praticamente zero.

 

O que faltou ser ressaltado aqui é que a recombinação é um dos instrumentos mais poderosos como fonte de variação. Com a recombinação, é possível que conjuntos de genes bem adaptados possam ser transmitidos juntos, em blocos, como supergenes. A recombinação também permite que mutações deletérias não sejam acumuladas. Assim, a recombinação acelera o processo de seleção natural no momento em que reúne mutações benéficas, que serão mais rapidamente difundidas para a população, ou deletérias, que serão mais rapidamente eliminadas (Smith, 1998).

 

Seleção natural

Segundo a teoria da evolução, a mudança começa com o material genético fornecido por mutações casuais e recombinação. A seleção natural é o processo chave que age sobre a casualidade da mutação e seleciona as características apropriadas para melhorar a adaptação dos organismos. A maioria das mutações é deletéria, mas a seleção natural é efetiva em eliminar as mutações mais destrutivas e preservar as benéficas. Consequentemente o efeito resultante é para cima, melhorando a adaptação ao ambiente, e consequentemente levando à produção de novos genes, novas adaptações e mesmo novos sistemas de órgãos.

Evolução não é sinônimo de progresso. Embora pensemos que uma população melhor adaptada a um determinado nicho seja superior à outra, é sempre bom lembrar que nenhum ambiente é estático. O ambiente está em constante mudança, e uma população bem adaptada para um determinado ambiente não necessariamente está adaptada para outro. Tampouco é sinônimo de complexidade. Basta vermos que ainda existem vírus, bactérias, etc. A evolução não é uma linha reta, como pregava o transformismo Lamarckista.

Mais uma vez tenho que destacar que a maioria das mutações não é deletéria, mas neutra. Assim, as variações que não estão implicadas na melhor (ou pior) adaptação dos organismos ao seu meio, são consideradas variações neutras e sua frequência na população flutua de acordo com mecanismos estocásticos. Esta é a premissa dos defensores do neutralismo. Embora atualmente biólogos evolutivos concordem que nem toda variação é “vista” pela seleção natural, quando se trata de adaptação ao meio ambiente ainda não há explicação melhor. Como pode ser observado, não existe uma “teoria da evolução”. Existem diversas teorias explicativas dos mecanismos pelos quais a evolução atua. A seleção natural é uma delas, assim como a seleção sexual e a deriva genética.

 

Um exemplo de seleção que ocorre em condições naturais é o do melanismo industrial. Um dos exemplos clássicos envolvendo mudanças causadas por seleção natural é o que se refere ao aumento de formas melânicas em populações de mariposas. Na mariposa Biston betularia, até a primeira metade do século XIX, a única forma conhecida era branco acinzentada, salpicada de pontos pretos. Exemplares escuros eram encontrados muito raramente. Em Manchester, Inglaterra, a primeira referência de um exemplar escuro data de 1848. Entretanto, em 1895, aproximadamente 98% dos exemplares coletados eram escuros. O que aconteceu para ocasionar essa mudança? Com a industrialização crescente de várias regiões inglesas, a fuligem produzida pelas fábricas enegreceu lentamente muros e troncos de árvores. Num ambiente sem fuligem, as mariposas claras confundem-se melhor com os troncos das árvores, que são cobertos por liquens. Ao contrário, as de cor escura são enxergadas pelos pássaros, predadas mais facilmente e têm menores chances de transmitirem seus genes a seus descendentes. Quando, porém, o ambiente fica enegrecido pela fuligem, a situação se inverte: as mariposas escuras se escondem melhor dos predadores, sobrevivem e se reproduzem com maior freqüência do que as claras. A cor escura, neste caso, acaba por predominar na população. Hoje já se sabe que a cor da mariposa é hereditária e depende de um par de genes, sendo a variedade escura condicionada por um gene dominante.

As observações da seleção natural, ao invés de mostrarem que ela é capaz de produzir mudança genética ilimitada, revelam os seus limites potenciais para mudança. No caso das mariposas descrito anteriormente houve apenas uma alteração na freqüência do gene para cor.

Evolução nada mais é, eu repito, do que a mudança na freqüência de determinadas características ao longo das gerações. Nem a seleção natural, nem outro mecanismo evolutivo qualquer pode atuar sobre uma variação inexistente. E os fatores que são fontes de variação já foram citados.

 

Outra observação da seleção natural mostra o seu potencial limitado para mudanças. Os famosos tentilhões de Darwin, localizados nas Ilhas Galápagos, são classificados em treze espécies colocadas em dois gêneros, e são sempre usados como exemplo de seleção natural e irradiação adaptativa. Estes tentilhões, em lugar de apresentar fortes argumentos a favor de um mecanismo para grandes mudanças, são uma ilustração de mudança limitada. Apesar de os tentilhões serem diferentes entre si com relação aos seu bicos e plumagens, eles são muito semelhantes internamente, e realmente não são muito diferentes um do outro. As várias espécies de tentilhões foram capazes de se estabelecer graças à sua habilidade de encontrar e preencher um nicho ecológico vazio.

 

As variações observadas entre os tentilhões de Galápagos mostram como uma população quando subdividida pode sofrer diferentes pressões seletivas fazendo com que determinadas variações tornem-se mais freqüentes que outras. Não há mistério nisso. O que a autora esqueceu de mencionar é que isolamentos reprodutivos como os observados em populações separadas por barreiras pré ou pós-copulatórias permite o acúmulo de diferentes mutações. Além disso, Darwin não foi o único a estudar os tentilhões de Galápagos. Uma busca pelas revistas Science e Nature pelo gênero Geospiza pode esclarecer a qualquer um os detalhes em relação à este grupo de pássaros.

Além disso, não vejo por que as diferenças entre as espécies devam ser tão grandes. Em Drosophila, por exemplo, há diferenças notadas apenas geneticamente (Guerra, 1988). Os peixes conhecidos popularmente como traíras também são bons exemplos. Já foram identificados pelo menos 7 diferentes citótipos (sem levar em consideração outras pequenas alterações), sendo que algumas apresentam sistemas cromossômicos de determinação de sexo e outras não (Bertollo et al., 2000) e até 3 destes citótipos convivendo em simpatria, ou seja, no mesmo habitat (Pazza e Júlio Jr, 2003), sem nenhuma ocorrência de formas híbridas. Estas formas cariotípicas claramente distintas umas das outras não foram até o momento separadas pela taxonomia, como espécies diferentes, por apresentarem muita semelhança morfológica.

 

O criacionismo sugere que a mutação e seleção natural não são capazes de produzir um aumento na complexidade originando novos genes e órgãos. Elas só são capazes de mudar os animais dentro das restrições de seu potencial genético original. A seleção natural age também como um freio, para eliminar muitos dos indivíduos que foram enfraquecidos pelas mutações e assim diminuir as forças destrutivas que se originam da mutação.

 

Sugere… Sem evidências. Entretanto as evidências contidas em livros de evolução e artigos publicados em revistas científicas (como Nature, Science, Evolution, Journal of Molecular Evolution, Journal of Evolution, entre várias outras) são vastas. Em nenhum nestes está escrito que a seleção natural age além do potencial genético de uma população. Como já escrevi, a seleção natural age apenas sobre variação pré-existente. Quem promove estas variações? Mutações, recombinação, alterações cromossômicas, etc. Sempre foi muito claro, desde Darwin, que a seleção natural age eliminando variações prejudiciais e no aumento da freqüência de variações benéficas.

 

Essa interpretação da seleção natural feita pelo criacionismo não é realmente uma idéia nova ou radical, e não vai contra os dados disponíveis. Muitos cientistas não criacionistas se questionam se a seleção natural pode realmente fazer algumas das coisas que a teoria da evolução afirma que ela faz. Eles não sugerem que os animais foram criados, mas que o processo tradicional da mutação de ponto e seleção natural não é o processo que gera mudança evolutiva significativa. O criacionismo reconhece que a seleção natural é uma força significativa, mas sugere que ela não é capaz de gerar novas estruturas significativas, e que não há outro mecanismo evolutivo que possa fazer isso.

 

É muito simples dizer “muitos cientistas” sem citar a fonte. Tudo o que escrevi pode ser encontrado nos livros que citei, e estes livros não são secretos, podem ser encontrados em qualquer boa livraria. Nenhum biólogo evolutivo ciente das evidências pode descartar o papel da seleção natural, da seleção sexual e da deriva genética na evolução. Mais uma vez repito, não há uma teoria evolutiva. Há diversas teorias que buscam a compreensão dos mecanismos evolutivos. A seleção natural não gera novas estruturas, mas pode fazer com que novas estruturas, quando conferem um valor adaptativo diferenciado, sejam perpetuadas através das gerações.

 

Mesmo que a mutação ou a recombinação realmente pudessem produzir algo verdadeiramente novo, para que sobre isso a seleção natural agisse, essa novidade quase certamente seria rapidamente eliminada. Uma nova característica estrutural ou orgânica que conferisse uma vantagem verdadeira na luta pela existência – por exemplo, uma asa para um animal anteriormente terrestre, ou um olho para um animal até então sem olhos – seria inútil ou até mesmo prejudicial, enquanto não estivesse plenamente desenvolvido. Não haveria razão para que a seleção natural favorecesse uma asa incipiente ou um olho incipiente ou qualquer outra característica incipiente. Indivíduos com órgãos incipientes sem utilidade estariam em desvantagem, e poderiam ser eliminados pela seleção natural. Não obstante, de alguma forma, se o modelo evolucionista é válido, as asas “evoluíram” em quatro ocasiões diferentes ( em insetos, répteis voadores, aves e morcegos) e olhos “evoluíram” independentemente pelo menos três vezes. Salisbury comentou este fato notável como se segue: “A minha última dúvida refere-se à chamada evolução paralela… Até algo tão complexo como o olho apareceu várias vezes, por exemplo, nas lulas, nos invertebrados e nos artrópodes. Já é suficientemente difícil prestar esclarecimento acerca da origem de tais coisa uma vez, mas o pensamento de produzi-los várias vezes, de acordo com a teoria da evolução, faz com que a minha cabeça gire.” Além disso, um órgão não precisa apenas estar completo: ele precisa trabalhar em harmonia com outros órgãos. Que vantagem haveria se um olho pudesse ver um inimigo se aproximando mas se não houvesse conexões nervosas para produzir uma resposta?

 

Richard Dawkins nos seus livros “O rio que saía do Éden”, “O relojoeiro cego” e “A escalada do monte improvável” cita inúmeros exemplos que contrariam as afirmações acima. Igualmente, Carl Zimmer o faz no seu “À beira d’água”. O que os críticos da evolução freqüentemente fazem é olhar uma característica em sua forma atual de uma espécie, e não correlacionar com os demais seres vivos. Nem mesmo os grandes cientistas fixistas como Cuvier ou Owen, por exemplo, faziam isso. A isso chamamos anatomia comparada.

Se pararmos para observar emas, galinhas e abutres, podemos ver diferentes estágios de utilização das asas. As asas neste caso são homólogas, pois têm uma origem comum. Entre as emas e avestruzes, elas não têm a função de vôo muito conhecida entre os pássaros. Nas galinhas, serve apenas para pequenos vôos. Muitas vezes estes pequenos vôos são suficientes para que uma galinha escape de um predador. A pouco desenvolvida asa da galinha é suficiente para melhorar sua situação frente a um predador, por isso seria facilmente mantida na evolução. Diferentemente de outras aves como abutres, águias, gaviões, pombas e andorinhas, que utilizam suas asas para voar realmente, algumas delas por grandes distâncias. Não estou dizendo que uma andorinha é descendente de uma galinha. Mas estou mostrando que diferentes graus podem ser observados, inclusive pelos registros fósseis, sendo que uma ligeira modificação pode permitir uma sobrevivência diferenciada para seu portador. Observa-se que as asas não necessariamente são utilizadas para vôos, mesmo entre as aves. Da mesma forma, outros vertebrados utilizam-se de expanções que possibilitam desde quedas mais brandas até planagens e vôo, como o morcego. Já entre os insetos, os mecanismos que estão envolvidos no seu vôo são completamente distintos dos mecanismos utilizados entre os vertebrados, dadas as dimensões e fisiologia destes animais.

Em relação ao olho, estima-se que tenha evoluído independentemente de 40 a 60 vezes. Destas, pelo menos 9 princípios distintos já foram reconhecidos e elucidados e são abordados de maneira simples por Richard Dawkins (1996). Por que será que algo evoluiria de maneira distinta tantas vezes? A resposta mais simples é que aproveitar os fótons emitidos pelo sol é algo de extrema utilidade no meio ambiente. Tanto que organismos que vivem no escuro absoluto como nas profundezas do mar ou no interior de cavernas ou são desprovidos de olhos ou de alguma outra forma não enxergam. Isso significa que mutações aleatórias que danificam a comunicação do olho com o cérebro ou a própria estrutura do olho pode ser neutra em ambientes sem luz, mas certamente, são absolutamente deletérias em ambientes iluminados. A sensibilidade aos fótons é tão importante, e atua como uma forte pressão seletiva a favor de organismos que conseguem sensibilizar-se a eles, que até mesmo plantas e organismos unicelulares possuem mecanismos que são sensibilizados pelos fótons. Uma planta cresce em direção ao sol, enquanto suas raízes crescem na direção oposta.

Uma importante descoberta do século passado foi a de que a maioria dos animais, ou todos eles, têm uma família de genes em comum, chamados Hox ou homeoboxes (Carroll, 1995). Estes homeoboxes são grupos de genes relacionados com o desenvolvimento dos organismos. São geralmente transmitidos em blocos e raramente sofrem recombinação. Através dos estudos destes grupos gênicos pode se perceber a atuação de mutações na geração de novidades evolutivas, bem como as relações entre os diferentes grupos animais.

 

CONCLUSÃO

Mutação e seleção natural são fatores que podem gerar diversidade em populações naturais, levando provavelmente, aliadas a outros fatores, à formação de novas raças e espécies, ou seja, mudança genética limitada. Mutação e seleção natural podem modificar informações, mas elas não podem criar novas informações. Portanto, estes fatores nunca poderiam levar a um aumento de complexidade, indispensável para a teoria da evolução. E não existe nenhum mecanismo genético plausível que possa levar a este aumento de complexidade.

 

As conclusões obtidas pela autora só poderiam ser consideradas no caso de esquecimento involuntário ou proposital de todas as evidências até hoje apresentadas pelos biólogos evolutivos. Em nenhum momento se fala que a seleção natural gera diversidade. A mudança genética não é limitada. Não se pode pensar em uma única mutação e pedir para ver uma grande mudança. Embora isso seja possível, em se tratando de homeoboxes, em geral não é o que ocorre. O acúmulo de mutações, associados a outros fatores como a recombinação, alterações cromossômicas, etc., permitem que novidades evolutivas venham a existir. E isso só acontece ao longo das gerações e porque as mutações normalmente são neutras, não deletérias como a autora insiste erroneamente em afirmar.

As evidências da evolução são cada dia mais amplas e vastas, e, de forma alguma, secretas. Publicações comprovando a atuação da seleção natural, bem como a seleção sexual e deriva genética (incrivelmente negligenciadas pela autora), assim como outros processos envolvidos nos mecanismos evolutivos, como vicariâncias, dispersão, isolamentos reprodutivos, além de estudos em polimorfismos de DNA, proteínas ou cromossomos, são publicadas em vários meios científicos a todo o momento. Entretanto, críticos da Evolução insistentemente ignoram as evidências, lançando como argumentos científicos meras opiniões baseadas em um fraco conhecimento acerca da evolução como ciência. Nem é preciso dizer que não há um argumento sequer corroborando a hipótese mitológica da criação.

Espero com este texto ter elucidado alguns pontos. Tenho certeza, entretanto, que para que o leitor pouco familiarizado com termos e mecanismos evolutivos, muitas dúvidas ainda permaneçam. Isso é perfeitamente normal. A biologia evolutiva embora pareça simples (por ter um princípio relativamente simples), esconde uma complexidade que exige muito estudo para ser compreendida, principalmente para os que tentam criticar.

 

Referências Bibliográficas:

– Bertollo, LAC; Born, GG; Dergam, JA; Fenocchio, AS; Moreira-Filho, O (2000). A biodiversity approach in the neotropical Erythrinidae fish, Hoplias malabaricus. Karyotypic survey, geographic distribution of cytotypes and cytotaxonomic considerations. Chromosome Research 8: 603-613.
– Carroll, SB (1995). Nature 376:479-485.
– Dawkins, R (1996). Climbing mount improbable.
– Mayr, E (1975). Polulations, species and evolution. Harvard Press, 453p.
– Pazza, R; Júlio Jr, HF (2003). Occurrence of three sympatric cytotypes of Hoplias malabaricus (Pisces, Erythrinidae) in Upper Paraná River foodplain (Brazil). Cytologia 58: 159-163.
– Ridley, M (2003). Evolution. 3th Ed. Blackwell Science.
– Smith, JM (2000) Evolutionary genetics. 2nd Ed. Oxford University Press, 330p.
– Stearns, SC; Hoekstra, RF (2000). Evolution – an introduction. Oxford University Press, 381p.