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Uma boa Tautologia é difícil de encontrar

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setembro 7, 2011 by administrador

Por John Wilkens, 1997.

Traduzido por Fernando Lorenzon

Sumário: A afirmação de que a teoria evolutiva é uma tautologia se apóia em um engano da teoria. Adaptação é mais do que apenas sobrevivência.

A versão simplificada do tão chamado “argumento tautológico” é esta:
Seleção natural é a sobrevivência dos mais adaptados. Os mais adaptados são aqueles que sobrevivem. Portanto, evolução por seleção natural é uma tautologia (uma lógica circular).

O verdadeiro significado deste argumento não é o próprio argumento, mas que ele foi tomado seriamente por quaisquer filósofos profissionais de maneira geral. A “adaptação” para Darwin não significava aqueles que sobrevivem, mas aqueles que se poderiam esperar sobreviver devido às suas adaptações e eficiências funcionais, quando comparado a outros na população. Isto não é tautologia, ou se é, então se pode dizer o mesmo sobre a equação newtoniana F=ma, que é a base para muitas das explicações físicas habituais.

A frase ‘sobrevivência dos mais adaptados’ não é nem de autoria de Darwin. Ela foi impelida a ele por Wallace, o co-descobridor da seleção natural, que odiava ‘seleção natural’ porque ele imaginava que a frase lembrava que algo estava realizando a seleção. Darwin cunhou o termo ‘seleção natural’ porque ele fez uma analogia com ‘seleção artificial’ como as realizadas por criadores de animais, uma analogia que Wallace não tinha feito quando ele desenvolveu sua versão da teoria. A frase ‘sobrevivência dos mais adaptados’ foi originalmente imposta por Herbert Spencer alguns anos antes da publicação de “Origem das Espécies”.

Todavia, há outra versão, mais sofisticada, pertencente principalmente a Karl Popper. De acordo com Popper, qualquer situação onde espécies existem é compatível com as explicações darwinianas, porque se essas espécies não forem adaptadas, elas não existiriam. Quer dizer, diz Popper, que definimos adaptação como aquilo que é suficiente para a existência em um ambiente dado. Entretanto, visto que nada é rejeitado, a teoria não possui poder explanatório, pois tudo é considerado.

Isso não é verdade, críticos de Popper observaram. A teoria darwiniana rejeita muita coisa. Ela rejeita a existência de organismos ineficientes quando organismos mais eficientes estão ao redor. Ela rejeita mudanças que são teoricamente impossíveis (de acordo com as leis da genética, ontogenia, e biologia molecular) para alcançar passos graduais e adaptativos. Ela rejeita novas espécies sendo estabelecidas sem espécies ancestrais.

Todas estas hipóteses são mais ou menos testáveis, e em conformidade com os padrões da ciência. A resposta a esta versão do argumento é a mesma, assim como para a versão simplista – adaptação não é apenas definida de acordo com o que sobrevive. Necessitaria haver uma história causal disponível para fazer sentido de adaptação (que é a razão da imitação em borboletas ter sido uma discussão focal na adolescência e aos vinte anos). Adaptação é um conceito funcional, não uma definição a priori lógica ou semântica, a despeito do que Popper imaginou.

O entendimento atual de adaptação é disposicional. Ou seja, adaptação é uma disposição de um traço a reproduzir-se melhor que os competidores. Não é determinístico. Se dois gêmeos são idênticos geneticamente, e, portanto, são igualmente adaptados, não há garantia que ambos sobreviverão para ter número igual de prole. Adaptação é uma propriedade estatística. O que ‘possui’ a adaptação não é o organismo, mas os genes. Eles tenderão a ser mais freqüentemente transmitidos, enquanto o que eles entregam é melhor ‘projetado’ para as necessidades dos organismos no ambiente em que vivem. E você pode determinar isso, dentro dos limites, por realizar ‘engenharia reversa’ nos traços para entender como eles funcionam.

Além disso, adaptação existe acima das propriedades dos próprios organismos individuais. Há três maneiras discutidas para interpretar isto. Adaptação pode ser uma relação de genes a outros genes. Adaptação pode ser uma propriedade superveniente – isto é, pode ser uma propriedade de estruturas físicas muito diferentes (de formigas, porcos-da-terra e alcachofras). Ou adaptação pode ser vista como uma propriedade emergente, uma propriedade de sistemas de uma determinada complexidade e dinâmica. Se adaptação é uma propriedade genética, organísmica ou sistêmica é um assunto na filosofia moderna da biologia. Eu acho que a interpretação sistêmica é a maneira ideal de abordá-la.

Recentemente, houve ataques no verdadeiro conceito da explicação adaptativa por alguns dos próprios biólogos evolutivos (por exemplo, Gould e Lewontin). Estes caem em dois campos – aqueles que pensam que adaptação não é suficiente para explicar a diversidade da forma, e aqueles que acham que explicações adaptativas exigem mais informação que alguém pode obter tanto da engenharia reversa ou da habilidade de gerar cenários plausíveis. A razão dada pelo precedente é um tipo de argumento vindo de incredulidade – seleção natural não é imaginada como uma causa suficiente, e que a macroevolução (evolução no nível de espécies ou acima) é um processo de um tipo diferente da seleção dentro de espécies. Argumentos sobre parcimônia (Navalha de Ockham) abundam.

Argumentos para a segunda opinião – que explicações seletivas necessitam complementar – se apóiam não a uma eficácia causal de seleção (que não é negada), mas nos problemas de explicação histórica. A fim de explicar por quê uma espécie exibe este traço preferivelmente àquele traço, você precisa saber o que é a hipótese nula (do contrário, você pode fazer uma explicação seletiva para ambos, um caso e seu oposto, igualmente bem).

Talvez tenha este traço porque seus ancestrais o tinham, e este traço foi mantido por seleção. Talvez o tenha porque poderia ser muito disruptivo para o genoma inteiro e o mecanismo desenvolvido para removê-lo. Talvez o tenha por razões que tem a ver com derivação genética, acidente simples, ou qualquer coisa. A fim de fazer uma boa explicação científica, diz Griffiths, você deve saber um pouco sobre a filogenia das espécies, sua distribuição ambiental, e como o processo que cria o traço trabalha ao nível dos genes, células e zigotos.

Isto nos leva à questão sobre o que uma explicação científica realmente é; de fato, ela abre a questão sobre o que é ciência, que é tão diferente de outras perseguições intelectuais como gamão, teologia e crítica literária.


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