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O Homem de Piltdown

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setembro 7, 2011 by administrador


Por Rubens Pazza, DSc., 2004.

A fraude do Homem de Piltdown é frequentemente apontada por criacionistas e críticos das teorias evolutivas como uma evidência contra a evolução. Imaginam eles que, assim como os cientistas se enganaram uma vez (ou tentaram enganar a comunidade em geral), tudo mais em se tratando de evidências evolutivas está comprometido. Felizmente a ciência é dinâmica e coube aos próprios cientistas decifrar o enigma do Homem de Piltdown, assim como cabe a ela, através do método científico, atualizar seus dados fornecendo explicações mais detalhadas ou corretas acerca de assuntos específicos. O avanço científico e tecnológico juntamente com novas descobertas sempre são úteis para uma releitura das antigas descobertas. É a constante dialética da ciência. Um bom panorama histórico sempre é interessante quando precisamos entender um fato. Newton Freire-Maia dá um bom panorama histórico em relação a este assunto, sendo este texto baseado em seu livro “Teoria da Evolução: De Darwin à Teoria Sintética”.

Uma vez que Darwin firmemente estabeleceu a evolução como parte de uma tendência na vida intelectual do século XIX, os cientistas tiveram que considerar as origens humanas em termos naturalísticos e não sobrenaturais. Mais importante que isso, tiveram que considerar as qualidades especiais humanas, aquelas que parecem nos separar do mundo natural. Em seu livro “A Descendência do Homem”, Darwin identificou aquelas características que tornam os humanos especiais – inteligência, destreza manual, tecnologia e o andar ereto – e argumentou que um macaco provido de poucas quantidades de cada uma destas qualidades poderia certamente possuir uma vantagem sobre outros macacos.

Um dos grandes debates intelectuais do início do século XX era a respeito da ordem em que as novidades evolutivas surgiram nos humanos. Uma noção era que o primeiro passo rumo à humanidade foi adotar o caminhar ereto. Um segundo passo foi a evolução do cérebro, produzindo uma criatura inteligente mas ainda arbórea.
Neste clima intelectual que se desenvolveu a famosa fraude do Homem de Piltdown.

O homem de Piltdown foi encontrado em 1912, e o primeiro trabalho sobre o assunto foi publicado no mesmo ano. O arqueologista e geólogo amador Charles Dawson com a contribuição (em parte do trabalho) do sacerdote jesuíta Teilhard de Cardin, também muito interessado em geologia e paleontologia, encontrou uma mandíbula (com dois dentes), aparentemente de macaco, outros pedaços de calota craniana, vários dentes e ossos fossilizados de animais, instrumentos de pedra, etc. A princípio, deduziu-se que os ossos do crânio e mandíbula fossem do mesmo animal, pois foram encontrados em curta distância, apresentavam os mesmos sinais de fossilização e os dentes, apesar de semelhantes aos de macaco, tinham características humanas.

Mais tarde Dawson encontrou mais fósseis, fortalecendo a hipótese do ancestral, parte Homo e parte macaco, pois, embora o crânio parecesse muito semelhante ao do homem moderno, a mandíbula era nitidamente primitiva. O Homem de Piltdown foi então batizado de Eoanthropus dawsoni. Estas “evidências” pareciam demonstrar que o cérebro abriu o caminho para o surgimento do homem e que as origens do homem moderno eram extremamente antigas.

Em 1920, o próprio Teilhard publicou um importante artigo sobre o problema. Neste artigo ele relata sua participação no projeto. Por fim, dizia ele no artigo que pelas evidências o crânio e a mandíbula deveriam pertencer a dois seres diferentes.

Com a descoberta de outros fósseis mais antigos, verificou-se que o homem de Piltdown era uma excrescência, não cabendo em lugar algum. Os novos fósseis mostravam crânios menos humanizados e mandíbulas mais humanizadas, restando-se admitir duas linhas evolutivas para que, numa delas, se encaixasse o estranho fóssil.

Por volta de 1949 havia sido desenvolvido um método de datação baseado no fato de que ossos enterrados absorvem fluor do solo e que a quantidade absorvida aumenta com o tempo durante o qual permaneceram soterrados. Esse método é de tal forma seguro que, quando numerosos ossos são encontrados juntos, o teste do fluor diz claramente quais são os mais velhos. Aplicado o método aos ossos de Piltdown, verificou-se que tanto o crânio como o maxilar inferior do suposto Eoanthropus continham apenas traços de fluor, enquanto que os demais fósseis possuíam grandes quantidades. A redução da idade do suposto fóssil de 500.000 anos para talvez não mais de 50.000 tornou-se um absurdo evolutivo: não tinha ancestrais, não produzira descendentes, não podia representar um animal pré-humano, não poderia ser um macaco (seu crânio era humano e nunca houve macacos por aquela região) e não poderia ser um homem, pois a mandíbula era de macaco.

O assunto voltou a ser reconsiderado em 1953. Sabia-se que havia uma importante característica humana nos dentes supostamente de macaco, mas estas características poderiam não ser como aparentam. Análises químicas revelaram que a mandíbula e os dentes continham uma quantidade de nitrogênio e de carbono orgânico igual à de materiais modernos. A calota craniana continha muito menos. Outras análises químicas e a microscopia eletrônica confirmaram que o maxilar inferior era moderno e havia sido colorido artificialmente para se parecer com a calota craniana. Em 1913, um exame radiográfico da mandíbula parecia revelar que as raízes dentárias eram curtas demais para serem de macaco. em 1953, novas radiografias mostraram que elas se mostravam muito mais longas do que se pensou – exatamente como acontece com macacos modernos. Outro estudo comprovou o que se suspeitava: o desgaste encontrado nos dentes tinha uma posição que não é natural, sendo artificialmente produzido para parecer humano. Ainda, material plástico tinha sido posto no canal do canino para diminuir-lhe o tamanho.

Verificou-se, então, que a mandíbula deveria ter vindo de um orangotango.

Os implementos e os fósseis de animais encontrados com o Eoanthropus foram também desmascarados. Os instrumentos de sílex representavam lascas grosseiras que poderiam ter qualquer idade, mas possuíam cor avermelhada tal como o pedregulho local. Análise espectrográfica revelou que haviam sido tingidos artificialmente. A ponta de uma peça feita com osso de elefante mostrou-se somente ser possívelmente preparada com uma moderna faca de aço.

O estudo sobre os restos de outros animais encontrados perto de Eoanthropus revelou que eram realmente fósseis mas tinham sido igualmente tingidos e deveriam ter vindo de alguma coleção de fósseis estrangeiros.

Quanto aos fragmentos dos crânios, um deles parecia se tratar de um “espécime patológico” talvez obtido em algum túmulo antigo. O segundo é possivelmente um pedaço do primeiro (guardado para ser usado mais tarde), ambos devidamente tingidos para simular pertencerem ao local. Ainda, conforme havia notado Teilhard de Chardin, não se podia dizer que a mandíbula se encaixava no crânio pois lhe faltavam os côndilos da mandíbula que articulam com as cavidades glenóides.

Em 1954 os resultados das investigações foram apresentadas por Oaley e Weiner, diante da Geological Society de Londres. Sir Gavin de Beer, então diretor do Museu de História Natural declarou que “a ciência havia lucrado com o trabalho de demolição do ‘fantasma do Homem de Piltdown’: várias técnicas para estudo de fósseis havaim-se desenvolvido, o que tornava impossível a repetição de uma fraude deste tipo, sendo de grande valia para o futuro estudo científico dos fósseis”. Em meados de 1996 os primeiros vestígios materiais da identidade do falsário veio à tona, apontando para Martin Hinton, colega de Arthur Smith Woodward no Museu de História Natural de Londres.

Muitos criacionistas criticam os estudos evolutivos tendo como exemplo a fraude do Homem de Piltdown. Entretanto, desconhecem a real história da fraude. Desconhecem que na época do “descobrimento” do “fóssil” os estudos paleontológicos estavam engatinhando e eram feitos muitas vezes por despreparados geólogos amadores. Estes ainda auxiliam os pesquisadores, e são responsáveis por achados importantes. Entretanto, as análises são levados a cabo por especialistas na área. Atualmente o estudo de fósseis conta com equipamentos e técnicas sofisticadíssimas que teriam desmascarado tal farsa já no primeiro olhar. Além disso, como foi observado ainda nos anos 20, com o crescente número de fósseis sendo descobertos, o espaço para tais farsas fica cada vez mais limitado.

Referências
Freire-Maia, N. (1988). Teoria da Evolução: de Darwin à Teoria Sintética. Itatiaia, Belo Horizonte, MG. 415pp.
Lewin, R. (1998). Principles of Human Evolution. A core textbook. Blackwell Science, London. 526pp